O Estado de S.Paulo 2011

Antonio Gonçalves Filho

Novas faces do Rio

Série de fotos de Claudia Jaguaribe mostra como a cidade muda e conduz a uma nova forma de percepção da paisagem.

Pelo menos do alto a cidade do Rio de Janeiro conseguiu abolir a separação de classes, fazendo a favela se encontrar com os edifícios da zona sul, como se vê na panorâmica acima, impressionante exercício fotográfico da topografia dessa "espécie de Babilônia" do século 21. A classificação é da própria pesquisadora dessa nova e inquietante paisagem carioca, a fotógrafa Claudia Jaguaribe, que exibiu a série no ano passado na quarta edição da SP-Arte Foto. Ela prepara agora um livro com essas imagens, a exemplo do que fez com séries anteriores suas (Aeroporto, Atletas). Recentemente premiada com o internacional Picture Prize com uma série cuja temática era a sustentabilidade do planeta (a série Quando eu Vi), a fotógrafa carioca abre em junho duas mostras simultâneas, uma no Rio e outra na galeria Blanca Soto de Madri, que trabalha com novos talentos como o fotógrafo espanhol José Luis Santalla, entre outros.
O projeto de rever a paisagem do Rio - que naturalmente mudou muito desde Marc Ferrez - não surgiu como um estudo sociológico das favelas cariocas, como podem sugerir as fotos. A cidade, garante a fotógrafa, tem suas peculiaridades quando comparada a outras metrópoles. "Lá todos se veem ao mesmo tempo, diferente de São Paulo e de outras cidades em que as comunidades são fisicamente distantes", observa Claudia, fazendo um exercício analógico para buscar no mar um exemplo visual que sintetize a imagem do Rio: "É uma cidade-polvo com milhares de tentáculos que se grudam em qualquer lugar".
Esse "olhar e ser visto" interclassista possibilita, segundo a realizadora da série carioca, uma "simultaneidade de visões que se complementam" e podem contribuir para um diálogo produtivo no futuro. "Não vejo essa paisagem como uma obra acabada, e sim como algo em transformação", diz. O foco inicial da série, registrada de helicóptero com uma Canon Mark II, era mesmo a paisagem carioca alterada pelas intervenções arquitetônicas de variados segmentos sociais. Claudia fez mais de 4 mil imagens com a câmera digital, sobrevoando a Rocinha, o Vidigal e outras favelas na tentativa de registrar o que restou de verde nesse território adensado e nada parecido com as paisagens bucólicas registradas por Marc Ferrez (1843-1923) no fim do século 19.
Claudia fotografa há anos a natureza, mas não aquela contemplada pelos grandes paisagistas do passado como Ansel Adams). Ela busca algo mais complexo, a narrativa sugerida por essa paisagem - como a da foto ao lado, em que uma menina subindo na caixa d"água pode tanto contar uma história individual como sintetizar a trajetória coletiva e subterrânea dos grande morros cariocas. Essas são imagens desestabilizadoras, provocantes, que desafiam o espectador diante de uma paisagem familiar que, paradoxalmente, ele não reconhece. Carioca de nascimento, ela ficou surpresa como a expansão geográfica das favelas cariocas alterou tão radicalmente o panorama de sua infância a ponto de ratificar teorias de Hélio Oiticica sobre a inversão de sinais culturais que conduziriam a uma nova forma de ver a arte. "Pensei até num desdobramento desse trabalho no segundo semestre, usando esse material que, inicialmente, registraria apenas a expansão urbana."
A evocação do nome de Oiticica (1937-1980) não é gratuita. Além de ter buscado inspiração nos morros cariocas, que frequentava assiduamente, algumas de suas maiores criações - como o parangolé, capa que fez para os passistas da Mangueira desfilarem no Museu de Arte Moderna do Rio em 1965 - ajudaram a cruzar a fronteira entre arte erudita e popular, não esquecendo que Oiticica foi um dos grandes nomes do movimento neoconcreto brasileiro. O artista, também inspirado pela precária arquitetura dos barracos, fez suas primeiras instalações com madeiras baratas, criando nos anos 1960 a maior dessas obras, o penetrável Tropicália, adotado como referência estética pelo movimento tropicalista. "Não sei quem influenciou quem, mas o fato é que até hoje você sobe o morro e vê esses parangolés lá."
A abordagem de Claudia, no entanto, não permitiu uma aproximação como a de Oiticica, que convivia, de fato, com os marginais das favelas. Essa fotos, aliás, foram feitas antes da tomada dos pontos de tráfico pela polícia. O trânsito entre as comunidades, motivado pela ostensiva presença policial, modificou ainda mais a paisagem com o surgimento de novos barracos a cada ação militar deflagrada nas áreas dominadas pelo tráfico, que intimidava os pilotos de helicóptero contratados pela fotógrafa. "Eles não queriam descer perto das favelas com medo de sermos atingidos, especialmente na Rocinha e no Vidigal", conta Claudia.
Apocalipse. Há algo de escatológico nessas fotos - no sentido bíblico do termo. A paisagem apocalíptica de um Rio que desaparece soterrado por edifícios e barracos reflete, de algum modo, o fim do mundo natural. Essa antevisão assustadora é a de uma fotógrafa identificada com a causa ambiental e interessada em revelar o confronto entre homem e natureza, uma preocupação dividida com outros artistas internacionais, como o dinamarquês Olafur Eliasson, conhecido por suas gigantescas instalações que usam água e luz, modificando a paisagem natural (como sua intervenção feita há três anos sob a ponte do Brooklin, uma cascata artificial ). Também a fotógrafa "construiu" a própria cascata na videoinstalação O Seu Caminho, que mostra, em três minutos, um barquinho passando em looping sob uma cachoeira.
Pioneira na realização de videoinstalações no Brasil, esse fascínio por artistas que trabalham com mídias eletrônicas não pode ser entendido como um fetiche. Ela usa esses campos híbridos justamente para forçar a criação de novos mundos visuais. Foi assim, por exemplo, que surgiu o curta Carandiru (2003), feito durante as filmagens do longa homônimo de Hector Babenco. Ou o vídeo do projeto Aeroporto (2002), o primeiro a expandir seu trabalho para imagens em movimento.